Terça-feira, 15 de Abril de 2008
Mulheres no governo em Espanha
É impossível ficar indiferente à constituição do novo governo de Zapatero. Anunciado ontem oficialmente perante uma bateria de jornalistas, fotógrafos e câmaras de TV, ficámos a saber que há mais ministras do que ministros e que, pela primeira vez em Espanha, há uma mulher na pasta da Defesa.
Carme Chacón, 37 anos, grávida de 7 meses, foi a estrela do dia. Passou revista às tropas perfiladas com o seu antecessor ao seu lado, e soube manter a pose e o aprumo que a circunstância exigia. A passagem de testemunho entre ministros da Defesa teve um impacto brutal em quem assistiu. Primeiro pela circunstância de Carme ser mulher e depois por estar à espera de um filho que nasce daqui a dois meses.
Esta primeira imagem oficial de Carme Chacón fez disparar instantaneamente a popularidade de Zapatero e do seu novo governo. Mas houve mais! Zapatero apostou forte e decidiu criar uma nova pasta: o Ministério da Igualdade.
Bibiana Aído, de 31 anos, é a nova Ministra do novo Ministério da Igualdade e a sua nomeação não deixa de ser igualmente surpreendente. Passe a redundância, a realidade desta nomeação mostra que Zapatero quer ir muito 'à frente' no seu tempo. Por dar lugar e poder às mulheres e por confiar nas gerações mais novas.
Os 31 anos de Bibiana Aído e a gravidez evidente (e quase de termo) de Carme Chacón dizem muito nos dias que correm. Embora não seja fã de Zapatero tiro-lhe o chapéu pela ousadia com que rasga o horizonte governamental e institucional. Não só investe na competência e inteligência femininas, como não se importa de 'esperar' que a nova ministra da Defesa tenha o seu filho e fique de baixa nos primeiros tempos. Mais, acredita que após o parto Carme continua a ser a mulher mais apta para o serviço.
Zapatero contraria assim a lógica em vigor em muitas empresas, que desaconselham as mulheres a terem filhos para poderem evoluir na carreira e serem produtivas. Pobres empregadores estes que acreditam que uma mulher é mais produtiva e mais eficiente se a sua vida pessoal e a sua evolução profissional forem condicionadas (ou mesmo prejudicadas) pelo facto de quererem constituir família.
Gostei do que vi ontem e fico atenta à performance das novas ministras espanholas e destas duas em particular.
De anónima (por enquanto) a 15 de Abril de 2008 às 15:54
Nem de propósito!
Desempenho, há cerca de 5 anos, funções de coordenação numa empresa que pertence a uma influente família portuguesa e estou neste momento a passar por um processo de despedimento colectivo.
Tenho um filho com quase 6 meses e fui notificada do meu despedimento por carta enquanto ainda estava de licença de maternidade, com o meu filho internado, por ter feito uma complexa cirurgia a um rim (na altura com 4 meses) e ainda sem previsão de alta.
Não tenho dúvidas que estou a ser vítima de descriminação e que, ao fim de anos de trabalho, fins-de-semana e horas extraordinárias não remunerados, é este o respeito que mereço por ter vestido a camisola e ter acreditado neste projecto como se fosse meu.
Trabalho por objectivos e nunca estive abaixo dos 95% de concretização. Já exerci funções numa outra empresa do Grupo, na qual obtive resultados igualmente bons. O meu superior hierárquico é mulher, sem filhos, e o melhor que conseguiu dizer-me foi "você foi aumentada no início de 2007 e depois engravidou. Estava à espera de quê?! Muita sorte teve você por o seu chefe não ser um homem, porque se fosse, acredite que lhe faria a vida negra!". Frieza, arrogância e, numa análise objectiva, sem qualquer tipo de vontade de me reintegrar numa das várias empresas do grupo. Porquê? Porque provavelmente vou render menos, trazer resultados menos bons, ausentar-me para assistência à família porque enfim, tenho um filho com uma má formação... Em nenhuma altura me perguntaram que expectativas tenho, a que me proponho...
Um filho traz-nos força, alento e uma capacidade de auto-superação que não imaginamos ter. Estou a lutar pelos meus direitos, na esperança que as influências exercidas pela "familía" junto da entidade a quem compete julgar este tipo de casos, não a façam abdicar da sua idoneidade.
Vai sei difícil esquecer o choque que tive e a pressão pela qual estou a passar, sem saber (para já) o desfecho que vai ter esta minha história. É triste ver que o nosso país/cultura tem ainda um longo caminho pela frente até nos podermos orgulhar de viver uma realidade sem descriminação da mulher no trabalho.
Também não aprecio especialmente o homem, mas merece palmas. A Espanha continua a dar saltos gigantes. Fantástico .
Um blog com excelente design e belas fotos, duma excelente jornalista, Laurinda Alves.
Deixo uma dúvida em relação ao texto sobre o elenco do novo governo de Zapatero, é de facto corajosa a composição, especialmente por conta da ministra da Defesa, Carme Chacón, grávida de 7 meses.
Em Espanha, quer no PSOE quer no PP, vêem-se muitas mulheres, com imensa qualidade e potencial politico, em Portugal, nem por isso!
Não será uma questão ideológica se tivermos em conta os excelentes exemplos também do PP espanhol, não será uma questão de formação académica ou de disponibilidade , tendo em conta que os melhores exemplos de mulheres espanholas na politica serem profissionais com carreira reconhecida e mães de família, será portanto uma questão económica?Será cultural?
São latinos como nós, de matriz católica como nós, num sistema politico cada vez mais bipolarizado como o nosso, têm uma Monarquia Parlamentar ao contrário do nós, com um passado muito mais "violento" e inibidor para quem almeje ser politico, devido à ETA, e no entanto as mulheres aparecem cada vez mais em primeiro plano, mas não porque sejam "caras lindas" do "sexo certo" para "encher" quotas, destacam-se mesmo pela qualidade, afirmam-se pela sua força no trabalho e no discurso...e nós por cá?
Temos Partidos Políticos com quotas para mulheres (pessoalmente julgo ser uma péssima ideia que promove números e percentagens e não qualidade e capacidade) mas as coisas não correm bem assim, porquê?
De Christine Trévidic a 17 de Abril de 2008 às 11:28
Pessoalmente, acho que tem a ver com a nossa cultura económica e empresarial, pouco profissionalizada, demasiado alicerçada em práticas de gestão familiares, cultura do 'desenrasca', tentativa/erro e atitude machista.
Não tenho dúvidas que é, actualmente em Portugal, reconhecida à mulher a sua competência e capacidade de liderança nas organizações modernas. Mas... veja-se a quantidade de pareceres emitidos pela CITE no âmbito da não descriminação das mulheres no trabalho http://www.cite.gov.pt/cite/Pareceres.htm); vejam-se as discrepâncias salariais entre os dois sexos e compare-se o número de cargos de chefia ocupados entre mulheres e homens (http://www.cite.gov.pt/imgs/instrumcomunit/Relat_igualdade_entre_homens_e_mulheres2007.pdf).
Também não tenho dúvidas que é uma questão de "tempo" até este assunto da discriminação sexual deixar de ser alvo de discussão. Até lá algumas "cabeças vão rolar" e vão continuar a estabelecer-se regras redundantemente discriminatórias como as quotas para mulheres nos partidos políticos.
Sobre os espanhóis, bem esses sempre souberam promover-se e âncorar os seus valores na cultura da nação. Falo da língua e das artes em geral. Não só absorvem influências do mundo como também dão ao mundo o melhor que têm. Fazem com que o mundo os veja de forma muito "apetecível".
Nós por cá ainda não sabemos se o nosso melhor ficou nos Descobrimentos, se no Eusébio e na Amália, se somos só Sol e Praia ou eternamente classificados como o país subcontratado. O certo é que ficamos eufóricos cada vez que aparece um Mourinho, uma Mariza.. mas esquecêmo-nos que, no dia em que o Mourinho errar a estratégia e a Mariza desafinar, voltamos à estaca zero. Não seria mais inteligente apostar nos "errantes" Paula Rêgo, José Saramago, António Damásio e "devolvê-los" ao nosso país?!
Não sei...
De
Straycat a 22 de Abril de 2008 às 01:26
Portugal está a precisar de um governo assim. Chega de discriminar as mulheres "por tudo e por tudo".
As mulheres são quem põe as crianças no mundo, dão-lhes a vida e depois dedicam a sua vida a esquecer-se delas próprias para cuidar dos outros.
Os empresários não apostam na igualdade e na protecção à maternidade. Se puderem despedem grávidas, para não as terem na suas empresas.
Estão, eles próprios, a precisar de uma carta de despedimento por justa causa.
Gostei muito do blogue. Muitas felicidades.
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