Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007
Retiro de silêncio
 
Escrevo ao fim de uma semana de silêncio e recolhimento numa casa grande com torres e claustro. Parece um antigo mosteiro de granito e cal ampliado ao longo dos tempos e agora convertido numa enorme casa cheia de quartos, salas e salões, corredores de pedra, escadarias largas, pátios quadrados com laranjeiras e jardins de buxos, cozinhas grandes, capelas de todos os tamanhos e feitios e, no cimo deste imenso labirinto de geometria recta, um terraço a perder de vista sobre a vinha e os campos lavrados que se estendem até à inspiradora margem de dois rios que se juntam, e correm debaixo da mesma ponte.
Na entrada nobre da casa existe um lago com peixes pretos e encarnados, rodeado de flores plantadas pelo fiel jardineiro que ajoelha na terra para cuidar das suas rosas de Inverno.
Ao fim de oito dias, confesso que não sei o que se passa no mundo e sei vagamente o que se passa em minha casa. Acho que sei o suficiente. Se alguma coisa radicalmente importante tivesse acontecido ter-me-iam dito e isso sossega-me. Uma semana sem ver notícias, sem ler jornais, sem ouvir os comentadores habituais e sem ter conversas mais ou menos avulsas sobre a actualidade do momento não me parece grave. Muito pelo contrário. E se, por acaso, perdi alguma coisa essencial, sei que a apanho já a seguir. Em Soutelo, a grande notícia foi a chuva que finalmente veio substituir o sol.
Uma semana de silêncio e meditação é, para muitos, uma coisa bizarra e uma atitude rara. Embora haja cada vez mais pessoas a procurar o silêncio e a distância crítica em templos budistas, workshops zen, retiros espirituais, férias em lugares sagrados ou viagens a paraísos ecuménicos, ainda há quem estranhe o silêncio. E quem o ache inquietante ou perturbador. Percebo a desconfiança porque eu própria já fui assim.
Se me tivessem dito há 12 anos, altura em que comecei a fazer EE (Exercícios Espirituais segundo a terminologia jesuítica de Stº Inácio, fundador da Companhia de Jesus), que ia passar uma semana por ano em silêncio e oração, eu tinha fugido. Ainda bem que não me disseram.
Conhecendo-me como conheço sei que tenho a tentação de escapar a tudo o que me querem impor e, daí, a minha gratidão comovida a quem um dia se lembrou de me desafiar a ter estas conversas no silêncio.
E é disso mesmo que se trata: de uma longa conversa, viva e desafiadora, sobre o essencial, no sentido de pôr a vida em perspectiva, de arrumar melhor as ideias, de ler o passado recente e projectar o futuro próximo. Uma longa conversa no sentido metafórico, de quem sabe que é possível manter um diálogo interior que interpela e leva mais longe, mas também no sentido literal porque falamos todos os dias com quem nos orienta e ouvimos este mesmo orientador falar várias vezes por dia, nas pequenas conferências que antecedem os tempos de meditação.
O silêncio, neste enquadramento e com esta exigência de profundidade, faz todo o sentido e não é nenhuma provação. Muito menos uma penitência. O objectivo é desligar da confusão, reduzir os excessos, diluir os barulhos, eliminar os ruídos na comunicação, depurar as conversas e limpar o olhar. Só isto.
Para quem está de fora, o silêncio pode parecer um teste ou uma prova olímpica de endurance mas, para quem está dentro, o silêncio sai sem esforço. Com a naturalidade de quem sabe que não falar não quer dizer não comunicar.
Aliás, esta longa conversa não teria o mesmo proveito nem os EE não seriam tão regeneradores se pudéssemos falar uns com os outros a toda a hora, pois desperdiçamos facilmente o nosso tempo e a nossa concentração em conversas de mesa e corredores.
Na verdade a contenção leva-nos muito longe, de muitas maneiras, e até podemos fazer amigos para a vida neste silêncio puro, permanentemente atravessado de olhares, sorrisos e gestos francos. A generosidade que se descobre em quem está ao nosso lado, por exemplo, ou a sensibilidade que se adivinha nos que demoram às refeições para ouvir a música escolhida com intenção e critério (um dia gostava de saber quem faz as play lists de música clássica, óperas e coros maravilhosos que ouço nos EE, para as poder reproduzir em casa) ou, ainda, a elevação com que todos vivem o recolhimento fazem do silêncio uma experiência marcante mas, também, profundamente estética.
O maior mistério reside na conjugação sempre feliz de pessoas que, sem se conhecerem, passam a encontrar-se todos os dias e, neste encontro, revelam uma abertura, um respeito e um espírito de grupo improváveis noutras circunstâncias e lugares.
Importa sublinhar que há um momento ao fim de cada dia em que, com moderação, podemos falar daquilo que mais nos tocou ou marcou. Negativa e positivamente, note-se. E é também nesta altura em que os que querem falar, falam, que nos conhecemos melhor e se tecem os tais laços que duram uma vida.   
Aos 46 anos sinto que pertenço claramente à ala senior dos retiros porque as inscrições são quase sempre feitas em centros universitários mas, nesta semana de preparação para o Natal, havia gente de todas as idades e condições. Rapazes e raparigas, homens e mulheres com vocações e profissões diversas, histórias de vida desiguais e expectativas distintas. Em tudo diferentes, excepto no credo.
Desta vez o orientador era Vasco Pinto de Magalhães, padre jesuíta que começou a sua formação em engenharia mas acabou por se licenciar em Filosofia, em Lisboa, e depois em Teologia, em Roma. Antigo jogador de rugby, dizem que era um dos melhores da sua geração. Autor de vários livros, é um conferencista muito solicitado por ser um grande comunicador. Em resumo: um sábio com o dom da palavra. Ou um verdadeiro Mestre, como diria Tolentino de Mendonça, poeta, também padre e outro grande sábio.
Numa Igreja com tantos problemas de comunicação é importante haver quem traduza e comunique bem a realidade bíblica. Quem seja capaz de descer ao concreto da vida, onde as coisas acontecem; quem nos ajude a compreender o incompreensível; a resolver alguns dos nossos dilemas e a dar sentido ao mistério; e quem saiba rasgar caminhos que possamos percorrer para ir mais longe.
Vasco Pinto de Magalhães tem este e muitos outros talentos. Ouvi-lo dissertar é um luxo espiritual e um desafio intelectual permanente. Fala a sorrir e usa palavras muito simples para dizer coisas muito profundas. A sua alegria diverte, contagia e ilumina. A sua atitude firme, centrada exclusivamente no essencial, inspira e transforma.
A profundidade de Vasco Pinto de Magalhães leva-nos a nós mais fundo e a sabedoria espantosa com que lê a vida e interpreta os factos, surpreende. E é esta surpresa associada à ‘extravagância’ da sua simplicidade que verdadeiramente convertem.
Percebo Tolentino de Mendonça quando fala dele e da maravilha de ser um padre raro na Igreja por ter criado um discipulado. Vasco Pinto de Magalhães tem realmente uma legião de discípulos que o seguem, lêm e acompanham por reconhecerem nele um verdadeiro Mestre. Na maneira como acolhe, como ajuda a pensar, como ensina a rezar, como mostra os caminhos que levam ao perdão e à reconciliação, na forma como revela a evidência e, insisto, na alegria e simplicidade com que nos centra no essencial.
Ao fim de uma semana de EE (que também podem ser feitos uma versão mais abreviada de três dias) a ouvir Vasco Pinto de Magalhães e a reflectir nas pistas que ele sugere em cada dia, faz ainda mais eco a certeza de que num mundo pós-cristão, fragmentado e dividido, um cristão não é uma resposta definitiva, é um desafio permanente.
 
 
 
 
 
 
publicado por Laurinda Alves às 19:02
link do post | comentar | favorito
10 comentários:
De Francisco Romeiras a 23 de Maio de 2008 às 19:42
É um privilégio poder fazer EE de 8 dias, ainda para mais com o Padre Vasco. Como é difícil explicar a quem nunca fez a importância do silêncio e a naturalidade com que surge...
Uma tarde a ler o arquivo do seu blog e já estou em Dezembro..
;)
De teresa saint-maurice a 8 de Novembro de 2011 às 15:28
Li um artigo sobre a magia de um retiro de silencio feito no resguardo da luz das mensagens de alguém especial para si, o Padre Vasco. Fiquei com vontade de saber mais, sobre estes retiros, sobre os EE e sobre a pessoa brilhante que se adivinha por trás de toda a prosa, brilhantemente escrita, acrescente-se!
será possível dar-me mais informação sobre como ir ao encontro deste apelo tão silencioso como anónimo? Grata pelo tempo que me possa dispensar, teresa
De sara nunes a 25 de Janeiro de 2010 às 05:45
pois é minha querida Laurinda se toda a gente tivesse a oporunidade de habitar numa casa como a sua e a ter ter um pobre de un jardineiro que se ajoelha para lhe plantar as rosas de inverno,desculpe que lhe diga mas foi de muito mau tom....se fosse assim minha querida ninguem necessitaria de casas de repouso...seja feliz....
De Laurinda Alves a 25 de Janeiro de 2010 às 10:18
Minha querida Sara, a casa onde fiz este retiro de silêncio é um antigo mosteiro em Soutelo, no norte. Tenho feito muitos retiros em Soutelo ao longo dos anos mas também noutras casas de retiros habitadas por 'Irmãs' e 'Irmãos' que generosamente abrem as portas a quem quer rezar, meditar ou fazer exercícios espirituais orientados por um padre. Foi o meu caso. Fica desfeito o seu equívoco. Um abraço.
De Ana Pedro a 29 de Setembro de 2010 às 11:32
Bom dia Laurinda
Há tanto tempo que a acompanho de longe visto não a conhecer pessoalmente. Muito sinto ter em comum consigo e estou tão feliz de ao pôr no google "retiros de silêncio" aparecer rapidamente o seu blog.
Talvez me possa ajudar me sugerindo um ou outro mosteiro de irmãs, apreciava ainda mais se fosse isolado fora de localidades, aonde de forma independente eu pudesse me retirar 2 ou 3 dias. Infelizmente estou em tratamentos oncológicos e por isso tenho de me sujeitar a vários factores que alteram em muito a forma de planear as minhas "retiradas"!
Grande abraço amigo
Ana
De Teresa a 30 de Abril de 2011 às 19:06
Olá Laurinda, um por acaso num mundo onde não há coincidências dei por este seu comentário apesar de já antigo :)
Dei por mim a tentar descobrir o dito mosteiro em Soutelo mas sem resultado!!
Podia dar mais alguma dica?
Obrigada; sei que o seu tempo deve ser curto.
Abraço
De Ana Isabel a 4 de Setembro de 2011 às 22:40
Olá Laurinda.
Vim parar aqui ao seu blog "por acaso", e foi muito engraçado pois sempre fui sua admiradora.
Andava a pesquisar por retiros, pois ando numa fase que ou me "retiro " uns dias ou ainda dou em doida. Venho por isso pedir-lhe que me aconselhe um retiro para uma principiante, que precisa de tempo com ela própria.
Obrigado
Isabel
De Liliete a 6 de Março de 2012 às 13:22
é um prazer intenso Redescobrir Laurinda
De alberto a 2 de Agosto de 2012 às 11:46
Silêncio essa coisa bela e tão criativo como recreativo. A luz e a ordem brotam do silêncio! Nele, silêncio, a palavra irrompe para preencher o intimo da vida, assim, a vida se faz acontecimento.
No silêncio a relação e a interação fazem-se carne amorosa no olhar e no escutar.

Cristo é a ousadia do silêncio... na sua Cruz o silêncio é o paradoxo da verdadeira revolução da vida.

parabéns pelo seu testemunho de fé na cultura pós-cristã.

alberto
De Ana a 18 de Outubro de 2013 às 22:36
Sou sua fã. Andava por aqui em busca desse silencio que descreve....e deparei-me com a profundidade do seu testemunho que continua muito actual. Estou numa fase da vida em que preciso de fazer uma paragem para repensar o sentido da minha existência. Fiz exercícios espirituais de 3 dias há 12 anos e foi uma experiência maravilhosa.
Desabafos.
Obrigada

Comentar post

.pesquisar
 
.Feitos em Portugal

Feitos em Portugal

.tags

. todas as tags

.portugueses sem fronteiras
.posts recentes

. MUITO OBRIGADA A TODOS PE...

. CURSOS DE COMUNICAÇÃO NO ...

. Curso de Comunicação adia...

. Se tiver quorum ainda dou...

. O BENTO E A CARMO HOJE EM...

. HOJE NO PORTO: SOBREVIVER...

. MÃES QUE NÃO CHEGAM A VER...

. Esta miúda vai longe!

. Alegria!

. Ladrões e cavalheiros

.arquivos
.mais sobre mim
.subscrever feeds