Sexta-feira, 21 de Novembro de 2008
Crónicas do Público de hoje

 

 

As Tristes Luzes de Lisboa
 
Da noite para o dia a cidade apareceu enfeitada de Natal mas este ano as luzes de Lisboa são tristíssimas. À excepção de dois ou três passeios considerados mais nobres e, por isso, com direito a uma iluminação quente e vibrante, todas as ruas têm luzes azuis, frias, geladas, sem graça e pior, luzes que choram. Na Avenida da Liberdade, por exemplo, o efeito mágico mais natalício que se inventou foi pôr lágrimas de luz a escorrer pelos fios, numa ilusão permanente de um choro silencioso que entristece e não apetece. Imagino que a iluminação da cidade tenha custos exagerados para os tempos que correm e não me custa acreditar que se não fossem alguns mecenas nem sequer haveria luzes de Natal mas pergunto se as lâmpadas azuis são assim tão mais baratas do que as encarnadas e as douradas. Serão? E a coisa compensa? Ou o azul é a cor de quem paga e, por ser a cor de quem paga, também tem que ser a cor do Natal em Lisboa. Se assim é parece-me absurdo o princípio. Imaginemos que os patrocinadores tinham uma marca conhecida por ser listrada, será que as lâmpadas de Natal passavam a ser luzinhas zebradas e toda a cidade se convertia num bisonho jardim zoológico de espécie única? Pior do estas luzes azuis e frias do Terreiro do Paço e das avenidas só um Pai Natal vestido de pijama azul eléctrico.
Sugiro que no próximo ano os responsáveis pelas iluminações revejam os catálogos de cores e ajustem os preços das lâmpadas festivas com os patrocinadores, negociando com eles a possibilidade de recuperar para o Natal as cores do Natal.    
 
 
Teste a sua inteligência dominante 
       
 
 
Desde que Daniel Goleman e os seus discípulos enunciaram outras formas de inteligência para além da que era possível medir através dos convencionais testes de QI, passámos a saber que existe um espectro largo de inteligências nas quais se incluem a emocional, a espacial, a corporal, a relacional, a artística, a existencial, a lógica, a afectiva, a relacional, a espiritual, a intuitiva e outras.
 
Ou seja hoje em dia não é possível falar de inteligência única mas sim de inteligências múltiplas, numa amplitude e profundidade que interpelam e obrigam a pensar. Desde já porque a aceitação de uma realidade investigada e provada pelas neurociências estabelece novos patamares de avaliação e outro poder de encaixe.
 
Os professores, os educadores, os empregadores e as pessoas em geral deixaram de poder contar com um teste que durante décadas foi um modelo universalmente usado para medir e rotular a inteligência de cada um. Hoje em dia poderemos talvez testar a nossa inteligência dominante mas não a inteligência em absoluto, pois os testes de QI não têm em conta a variedade possível.
 
Um teste de QI convencional não mede as competências relacionais, os dons manuais ou a inteligência artística, por exemplo. Nem avalia a capacidade de introspecção e pode nem sequer chegar a medir a inteligência lógico-verbal se não tiver em conta a capacidade de pensar e usar a linguagem para exprimir ideias.
 
Uma vez que não sobram dúvidas científicas sobre a quantidade e a qualidade das inteligências múltiplas é urgente complementar os testes de QI (para quem os faz e porque podem ser importantes em casos concretos) com outras formas de avaliação que compreendam o potencial de evolução de cada um, a sua capacidade de adaptação ao meio (e a circunstâncias mais ou menos adversas), que avaliem as competências sociais e relacionais, que testem a inteligência lógico-matemática e analisem a originalidade e a criatividade. Tudo isto num esforço de aceitação de que o lendário QI por si só é um critério perigoso, redutor e, por isso, muito enganador.
 
 
Outras coisas que faltam nas nossas escolas
 
 
No meio de tanto barulho e perturbação nas escolas, numa fase de braço de ferro em que muitos se desentendem, poucos se ouvem e menos ainda se acertam, vale a pena trazer à discussão outras questões tão ou mais importantes do que a avaliação dos professores e o sistema de faltas dos alunos.
 
Falo de lacunas graves em matérias essenciais no sistema de ensino português, falhas que mais à frente, na idade adulta e segundo os critérios do mercado de trabalho, se revelam perversas na medida em que condicionam as escolhas profissionais e até a progressão em certas carreiras.
 
Nas escolas portuguesas os alunos não são ensinados a argumentar e a defender pontos de vista, não são treinados no debate de ideias e muito menos estimulados no improviso e na expressão oral. Não existem aulas para aprender a falar em público nem as matérias relacionadas com a comunicação são muito exploradas e é pena pois os portugueses apresentam sérias desvantagens num campo cada vez mais exigente e determinante.
 
Numa era claramente marcada pela comunicação, ter dificuldade em exprimir ideias, em alimentar um debate ou manter uma polémica com quem tem opiniões divergentes é um handicap tremendo. A diversidade de dons é e será sempre enorme e hoje em dia ganha mais quem comunicar melhor aquilo que sabe.
 
Tão importante como pensar e fazer bem as coisas é saber comunicá-las. Acontece que no sistema de ensino nacional não existem cadeiras específicas de comunicação e o resultado é que a generalidade dos portugueses não se sente confiante na expressão verbal das suas ideias e competências.
 
Passo a vida em conferências, seminários, workshops, encontros e discussões públicas sobre inúmeras questões e saio de lá quase sempre com a frustração de ver que os conferencistas nacionais são os mais chatos e os mais abstractos. Usam powerpoints palavrosos e incrivelmente densos, limitando-se a debitar em alto o que está escrito no ecran que é projectado ao lado.
 
Sempre que alguém fala para uma plateia desta forma dá um tiro no pé. A audiência não consegue acompanhar nem as palavras escritas nem as palavras ditas e, por isso, a comunicação é nula. Um desperdício em toda a linha, portanto.
 
Há os que escrevem o que querem dizer para não correrem o risco de se esquecerem ou para manterem uma coerência discursiva impecável ao longo da sua intervenção mas também estes falham muitas vezes a comunicação por uma razão simples: enquanto lêm o papel não olham para a plateia e não falam verdadeiramente com quem está presente. Até podem dizer coisas bem articuladas do ponto de vista literário mas como não adaptam o discurso às circunstâncias, não percebem para quem falam nem se detêm na eficácia daquilo que comunicam.
 
Salvo as raras e honrosas excepções dos que têm essa maravilhosa capacidade de ler um texto como quem conversa, usando um tom coloquial e um estilo simples, todos os que lêm um papel em alto tornam-se monótonos. Pior, como trouxeram as coisas escritas de casa e não fazem nada de improviso, tudo aquilo soa a ‘minuta’. Ou seja, a coisa que tanto pode ser dita aqui como repetida ali.
 
Por tudo isto e porque é nas escolas e nos liceus que estas competências devem ser adquiridas e treinadas não me canso de falar sobre a gravidade desta lacuna no nosso sistema de ensino. O que me cansa é ouvir chatos muito chatos. 
 
 
       
imagem tirada deste blog
 
 
 
    
publicado por Laurinda Alves às 20:01
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12 comentários:
De Augusto Küttner de Magalhães a 21 de Novembro de 2008 às 22:31
Muito interessante esta referencia aos testes de QI. Penso que estamos na altura de dar mais oportunidades a percebermos este tema que a Laurinda, muito bem abordou. Há algum tempo, que os testes de QI estão a ser postos em causa, e parece não terem qualquer efeito, até porque não é tomada em consideração a inteligência emocional, e tudo o que para além da "razão" funciona no nosso cerebro pela "emoção", algo que está a ser mais estudado pelo nosso compatriota nos EUA António Damásio, a partir do Erro de Descarte - Penso logo Existe- e antes Penso, emociono-me , logo existe!
De Sara e Teresa a 21 de Novembro de 2008 às 23:40
Olá Laurinda! Ontem estive no Chiado à noite e fiquei deprimida com as luzes... a Byblos foi outra tristeza! Ainda bem que Jesus Menino vem!
De Existente Instante a 21 de Novembro de 2008 às 23:45
A Laurinda chama-lhes "chatos" , mas gosto mais da expressão da minha miudagem em relação a certos professores e aulas " Secas" ! E com que razão: aridez do tédio da monotonia! E todos sabemos o que isso significava, como procurávamos que os ponteiros do relógio acelerassem.
Mas vá lá a Laurinda dizer às Universidades nos cursos Via ensino onde se formam os futuros professores, que a arte da comunicação deveria ser obrigatória na formação inicial dos futuros docentes?! Riem-se de si!
Os grandes professores que tive eram excepcionais comunicadores, falavam com o corpo todo, e nesse corpo, a prova provada que amavam o que estavam a transmitir a ensinar! Outros os que não gostei mesmo nada e foram tantos eram portentos de enfado, de tédio, de monotonia, de voz monocórdica! Imagina ler Camões, ou Pessoa como se lê lista telefónica?
Conhece certamente o falecido professor Americano
Randy Pausch e a sua última aula pública? Aquilo era a palavra viva-vida, a comunicação como arco certeiro na nossa sensibilidade e inteligência. Era repetir vezes sem conta esse vídeo aos futuros professores do meu país!
De Mónica a 21 de Novembro de 2008 às 23:53
Sim, as luzes de Natal estão mesmo uma tristeza...
Mas segundo li, amanhã é que acendem todas. Não sei se o que ainda falta acender melhorará algum dos cenários... a ver vamos, mas eu não estou mto confiante!
De Zilda Cardoso a 22 de Novembro de 2008 às 08:26
Esta sua crónica, Laurinda, sobre as outras coisas que faltam nas escolas, deixou-me absolutamente entusiasmada.É exactamente o que eu ando a dizer há muitos anos sem conseguir chegar onde será necessário. Talvez se constituíssemos multidão, a voz da multidão pudesse ser ouvida...
Os professores terão alguma razão?! Mas, no Ensino, há coisas muito mais importantes a serem discutidas do que as suas famosas carreiras profissionais.
Se me permite, vou transcrever algumas das s/ palavras no m/ blog. Obrigada.
De Romina Barreto a 22 de Novembro de 2008 às 13:40
“Nas escolas portuguesas os alunos não são ensinados a argumentar e a defender pontos de vista, não são treinados no debate de ideias e muito menos estimulados no improviso e na expressão oral. Não existem aulas para aprender a falar em público nem as matérias relacionadas com a comunicação são muito exploradas e é pena pois os portugueses apresentam sérias desvantagens num campo cada vez mais exigente e determinante.”

Querida Laurinda, este excerto ficou a fazer um eco especial. Fiquei a pensar nisto e constato que é bem verdade. Infelizmente. Eu gosto de tudo o que tenha a ver com síntese, discurso, improviso e no liceu são raras as oportunidades que temos para treinar a comunicação.

Quanto à parte que escreve sobre o QI achei muito interessante e instrutivo o que diz. O ano passado li um livro de Daniel Goleman que falava exactamente sobre esta questão do QI e se não seria mais importante a inteligência emocional. O título era mesmo “Inteligência emocional” e faz levantar muitas questões, eu gostei, claro.

Também gostei da crónica à iluminação de Natal, cá (no Funchal) algumas ruas já estão iluminadas e muito sinceramente também não gostei, por causa das cores, não faz sentido!

Um beijo*

Romina Barreto
De Vera Baeta Lima a 22 de Novembro de 2008 às 16:44
Laurinha, ontem à noite tive que ir a Cascais e adorei o que por lá vi de iluminações natalícias. Dê uma espreitadela no Vekiki, estão lá algumas fotos! :-)
De fernando alves a 22 de Novembro de 2008 às 19:25
'Tão importante como pensar e fazer bem as coisas é saber comunicá-las'

concordo com tudo o que diz... vou divulgar o texto no blog www.cdlpc.blogs.sapo.pt que é lido por professores alunos e pais.

Um abraço

F.A.
De Moura Aveirense a 22 de Novembro de 2008 às 20:43
Sim, quando vou a algumas conferências é mesmo uma "seca" ouvir alguns oradores falarem... e aqueles que ADORAM ouvir-se a si mesmos e em vez de falarem 15 minutos, como estipulado, falam durante meia hora?!? Não há paciência...
De I.Bento a 23 de Novembro de 2008 às 23:01
Cara Laurinda, não posso estar mais de acordo consigo em relação às iluminações de Natal em Lisboa.
No ano passado e aproveitando um fim-de-semana de férias nos arredores de Lisboa, tive a oportunidade de ver, pela primeira vez, ao vivo, as famosas iluminações de Natal e quase perceber como é que há pessoas a residir no meu concelho, portanto, a cerca de 120 quilómetros da capital, que todos os anos se deslocam, propositadamente a Lisboa para ver aquele espectáculo de luz natalícia.
Este ano, estando, novamente, por lá, fiz questão de mais uma vez passar pelas ruas que esperava bem iluminadas.
Desilusão total. Não sei se era por ser nos primeiros dias e poder haver algumas que ainda não tivessem a iluminação a funcionar ou se este ano é mesmo assim. Até ao final do ano, ainda queria tirar a prova dos nove mas, para já, confesso, a desilusão foi grande: pareceram-me menos ruas e com umas iluminações muito mais fracas, sem vida.

i.bento

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